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Desabafo a quem queira ouvir

O corpo inclina-se para trás, as costas ficam arqueadas, duas pequenas curvas de músculo formam-se sob as omoplatas, e as pernas esticadas impulsionam todo o corpo para trás como uma mola que se dobra de forma perfeita. A silhueta desta mulher em contra-luz parece um sonho, sentimos a inegável beleza das curvas de uma mulher a impelir-nos como um soco no estômago, porque percebemos que parámos de respirar. Como se observar algo tão belo e absorver ar fossem duas tarefas impossíveis de serem realizadas ao mesmo tempo. Ou como se simplesmente nos esquecêssemos.... E num salto ela voa. Está no ar, quase parando o tempo à sua volta, para ser apreciada na sua façanha simetricamente perfeita, de execução irrepreensível. Acho que é esta sensação de sufoco que imagino, quando penso em estar num palco. Quando me imagino dona de uma voz que faça parar o ar que circula, que descaia a boca de muitos surpresos, que arrepie a maioria e que faça chorar os amados. Imagino os olhos fechados num aper...

Dançando

Agarras-me na mão e levas-me a dançar, rodopiando de pés descalços na escuridão. Tenho a sensação de flutuar sem medo, de voar de asas abertas, apenas saboreando o vento, sem palavras. Às vezes beijas-me, e isso são palavras elaboradas e que reflectem sentimentos tão profundos... O teu toque morno aconchega-me e completa-me, dando-me a tranqulidade para rodopiar um pouco para longe e depois voltar, como um barco e seu porto de abrigo. Às vezes cambaleamos. Quando o riso nos agarra e nos embrulhamos na gargalhada um do outro, abraçados e incontidos. Se pudessem ver-nos, talvez nos chamassem loucos embriagados. A cambalear, agarrados, o riso alto e descontrolado. E tu alimentas-te disso, como se te viciasse, e continuas a fazer-me rir cada vez mais. És o vento nas asas? Ou as próprias asas, não sei. Ou talvez sejas uma parte de mim, voando. Ou talvez sejas tu o pássaro e eu apenas te observe, não faço ideia... Só sei que me dás essa sensação de pés descalços a dançar no ar, sem nunca mai...

And the oscar goes to...

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O tempo passa por nós, muitas vezes como um tapete voador que nos retira de um lugar e nos leva para outro, sem que sequer cheguemos a dar por isso. Os caracóis da idade da inocência caíram, algumas rugas adensaram-se à beira do precipício do olhos e do sorriso (por vezes até da testa), e a pele, antes resistente a qualquer intempérie, agora texturiza-se de manchas e de grossas olheiras com a falta de tempo, os trabalhos que ainda estão na cabeça e os outros que já estão a ser feitos ou já deviam ser entregues... enfim, a entrada a pés juntos na vida adulta. Em resumo, o brilho dos olhos tornou-se um pouco mais baço: já não se sonha tanto com o príncipe encantado, a banda favorita ou o bife com natas, mas fantasia-se antes com uma casa a que possamos chamar nossa, um emprego estável e de que gostemos, e dinheiro ganho por nós, para uma refeição garantida. Enfim, crescer... Mas não escrevo para falar das coisas más que se adquirem, ou da suposta "crise" de que todos falam. Esc...

Lugar. Cor.

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Abre-se a porta e descobre-se qual é a sensação de nos embrenharmos na escuridão: olhar para a frente e parecer que nos estamos a ver de cima, a desaparecer no meio das sombras, a perder o contraste com a noite de repente, acabados de sair dum seio de luzes artificiais. E no entanto, tudo é mesmo tão artificial, que parece haver algum alívio quando deixamos de conseguir ver-nos a nós mesmos. Conforto-me cantando. Porque nada mais preenche. Parece haver um vazio, a que nada nem ninguém consegue dar cor nem significado. E ao escrever isto apercebo-me do chavão. Mas só agora o peso destas palavras me caiu sobre as costas. Só agora nos medimos mano a mano. Há um vazio. Mas não há uma razão. A casa não está vazia de móveis, nem de cores, nem de coisas minhas, que amo e desejo cuidar. Simplesmente não consigo focá-las, identificá-las, mover-me para as cuidar. Acontece que nos carregamos, sem saber para onde. À procura de uma porta em que nos faça sentido entrar. Em que pareça que vemos refle...

Abraço. Lugar

As pontas dos dedos geladas, desistentes a meio dos gestos. O sorriso embaraçado de quem conversa em silêncio na escuridão. Esperam a palavra do outro. O corpo rígido e os punhos fechados, ao mesmo tempo frio e insegurança. Levanta a cabeça, encarando o céu de baixo, com os seus olhos verdes a brilharem, perdidos nas estrelas. Segura um cigarro amachucado no centro da boca, e uma espiral e fumo e vapor desenrola-se à frente da sua boca quando expele um bafo do vício para o ar, segurando o cigarro entre os dedos. Desfaz-se como uma nuvem difícil e certa, em direcção ao céu que os cobre. Parece um prenúncio de algo que vislumbraram na noite passada, quando ele a acariciou em segredo enquanto dormia. Um gesto que ele não controlou, e que ela não impediu. E que no dia seguinte parecia ter-se esfumado, quando eles evitavam olhar-se nos olhos. Não sabiam o que tinha acontecido: apenas que esse toque fora irresistível, tão irresistível como inesquecível. A sua boca ficara a milímetros da dela...

Ano Novo, wicahpi em restauração

Após cuidadoso balanço, foi decidido que a wicahpi precisa de fazer restaurações na alma. Coisas pequenas mas que vão fazer a diferença. Porque em Novo Ano, sonha-se sempre com uma vida nova, ou pelo menos com umas pinceladas de cor mais viva nela. Porque quando olhamos para a nossa história, queremos ver que sem dúvida é nossa, que não podia ser de mais ninguém... Pinceladas: * Escrever mais, e fazer uma colectânea de textos para pensar em ir bater à porta de umas editoras, nunca se sabe... * Esforçar-me mais para estudar (esta repete-se desde quê?, dos meus 16 anos, mas ok) * Passar mais tempo com a família, que está também num momento de restauração * Tirar mais tempo para mim, sozinha, sem mais ninguém, para recuperar alguma paz interior * Fazer exercício físico, para não chegar às férias e andar de gola alta e calças largas * Batalhar nesse grande monstro que é a minha falta de auto-estima * Deixar de roer as unhas (outra que se repete desde sempre, mas é desta, é desta!!) * Aplic...

I do not love you...

"Eu não te amo como se fosses uma rosa de sal, ou um topázio (...) Eu amo-te da forma como certas coisas obscuras devem ser amadas, Em segredo, entre a sombra e a alma. Eu amo-te como a planta que nunca floresce, Mas que carrega consigo a luz de flores escondidas. (...) Eu amo-te sem saber como, ou quando, ou de onde, (...) Eu amo-te desta maneira, Porque não conheço outra maneira de amar A não ser esta, em que não há eu nem tu, Tão íntima que a tua mão no meu peito é a minha mão, Tão íntima... que quando eu adormeço, São os teus olhos que se fecham." Pablo Neruda