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Luz. por geração quase espontânea*

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Saio de casa. Vou sem nada. Espero nada. Mas lavo bem os dentes e a cara, tiro o cabelo dos olhos. Para me poder rir descaradamente, para enfrentar a vida de cara erguida, olhos abertos. Para beijar espontaneamente. E para deixar que a luz em mim comece finalmente a deixar-se ver. Depois visto roupa que não prenda os movimentos e vou dançar, desfazendo-me na música. O corpo expressa-se por mim, eu desapareço nele. Vou à boleia num corpo solto. E esqueço-me de pôr os sonhos em pausa, porque a dançar tudo é possível. Até voar.

A dor de querer sonhar [pequeno]

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Desejo fugir. Nunca pensei vir a ter vontade de fugir de algo que não se mexe, que não sai do sítio. E que ainda por cima faz parte de mim. Como é o caso do meu país . Mas sonhar com o dia de amanhã parece ter-se transformado numa doença, aqui neste cantinho à beira-mar plantado! Acreditar num amanhã melhor, num futuro, por mais simples e humilde que seja a construção, é agora irrealista e exagerado! E eu não estou pronta para abdicar do meu direito a sonhar! Não aceito que me tirem isso! Em pequeninos, todos nós sonhávamos com castelos de princesas, super-carros, vidas de filme! À medida que crescemos, vamos adaptando [mais ou menos!] os nossos sonhos à realidade que vamos conhecendo. Mas nunca pensei que um dia, o estado do país onde nasci e cresci me viria a vedar o acesso a coisas como ter filhos, um trabalho minimamente estável, uma carreira, um tecto! Ainda que queiramos sonhar pequeno... não dá! E isso dói! Cria pessoas sem nada a perder... Olhamos à noss...

Sonhos.

Se há coisa que nunca me faltou, foi capacidade para sonhar. Frequentemente, falta-me a motivação para os perseguir. Mas isso é um outro assunto. Agora imaginação para me projectar mais à frente, vivendo e arriscando, isso sempre tive de sobra. Por vezes acho que são os sonhos em excesso de "produção" que me atrapalham os passos do dia-a-dia; parece que se acumulam à frente dos meus pés como bichos molengas, fazendo-me tropeçar. Ilustrando melhor, imagino os sonhos como o meu cão, um pastor alemão enorme que gosta de se encostar preguiçosamente nas pernas das pessoas e impedi-las de andar, como estratégia para receber festas. Sonhos acontecem na minha cabeça como fogo de artifício. Formam uma casa dentro de mim, que vai crescendo e criando uma forma cada vez mais única. Coisa simples, como furar o nariz, conseguir deixar de roer as unhas, habituar-me a andar de bicicleta para todo o lado. Estes seriam o rés-do-chão da minha casa de sonhos. A seguir, sonh...

Bloqueio

Há uma história que um dia se deixará escrever. Quando o meu coração finalmente me libertar as mãos... E eu sinto que terá qualquer coisa de fantástico nela! Acredito nesta história, sem ainda a ter lido ou construído! Mas já a sonho há muito tempo. Por alguma razão que eu ainda não descortinei, esta história está dentro de mim escondida, sem dar sinais de vida, como um bebé que se recusa a nascer. O momento deveria ser de reflexão. Crescimento. Espaço. De me voltar para mim mesma e perguntar-me, de mulher para mulher: "o que é que tu queres da vida, afinal?!", esperando indubitavelmente uma resposta aos gritos e possivelmente uma discussão. Quero dar asas a esse sonho, com tanta intensidade quanta eu tenho cá dentro. Talvez seja a única certeza no peito, a não dispensar. Mas este bloqueio... Dá vontade de o morder, como se fosse uma almofada, até o romper e sentir nos dentes as penas a soltarem-se, finalmente livres...

Frases para acordar o coração.

"Se queres fazer da tua vida um elo de eternidade e manteres-te lúcido até no meio do delírio, ama... Ama com todas as tuas forças, ama como se não soubesses fazer mais nada, ama até causares inveja a príncipes e deuses...[...]. Quem passar ao lado da mais bela história da sua vida só terá a idade dos seus remorsos, e nem todos os suspiros do mundo poderão embalar-lhe a alma..."                                                                                            Yasmina Khadra, "O que o dia deve à noite"

Será possível

...voltar a sonhar quando já nos deixámos prender pelo mundo? Obrigações. Necessidades. Prioridades. Quero confiar no meu instinto. Tomar a decisão certa, neste momento de decisões. Pesar bem os pratos na balança. Acreditar e saltar. Defender a camisola, seja ela o "sim" ou o "não". Mas não sei se a balança está afinada. Apercebo-me de que sou hoje uma sombra do que um dia fui. Vim-me esquecendo de ouvir o coração e agora só sei olhar para fora. Quero olhar em frente e dar o passo. Que seja um passo qualquer desde que seja meu. Mas só vejo sombras à minha volta...

Pés

Preciso dos pés descalços. .. Não me chegam as sandálias, nem sequer chinelos. Não consigo ser mulher de saltos altos. Sobretudo não no Verão. Os meus pés não aguentam... precisam de sentir o chão, precisam de estar livres. Não nasci para ter os pés amordaçados. Sou de pé na terra...