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Eu sonhava. Eu sonhei. Eu sonho. Eu sonharei.

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Desde catraia que tenho um sonho bonito e recorrente, embora raro. Só deve acontecer quando estou num estado muito zen , quando a vida vai bem ou quando calha, não sei. Digo isto porque não tenho este sonho há anos. Às vezes, a necessidade de o rever é tão grande que me ponho a recriar o sonho, acordada. Porque afinal, é algo tão comum... algo que todos nós já sonhámos. Eu sonhava que voava . Com a nitidez do HD e dos subwoofers e dos efeitos 3D e dessas traquitanas todas. E mais ainda. Com a textura da realidade. Dava pulos grandes que se prolongavam, planando lentamente por cima de jardins e prédios. Quase sempre, o ponto de partida era a praceta linda onde cresci. Se me concentrar nesse ponto, o sonho de há muitos anos dá um pulo para o presente. Instala-se de janelas abertas e pica-me os sentidos. Levanto a cabeça e o vento atravessa-me o rosto em desgarrada. Entra-me pela alma adentro, claramente de caminho decorado. Olho para baix...

Essa senhora, a humildade.

Às vezes, a humildade decide fazer obras na minha alma. Entra grosseira e mal-humorada, de sinal vertical na mão, com um capacete amarelo e tudo. Avisa, resmungando, que o pavimento tem de levar remodelações. Não explica aos transeuntes admirados de onde veio a ordem. Não pára para pensar no que vai fazer; simplesmente vai a direito a destruir estrada, como um alfaiate que corta tecido sem olhar nem medir. Age sozinha. A humildade supostamente é uma qualidade, pensam vocês agora. Pois é. Só que em mim ela não produz a delicadez de uma donzela, mas sim os modos de um taberneiro mal encarado. E é assim que nasce o sentimento de pessoa pequenina . Sem prejuízo para os baixinhos, pois refiro-me a pessoa pequenina por dentro. Pessoa que não vale o esforço. Anda uma pessoa a querer transformar-se, crescer. E chega-me esta estarola e faz cada buraco que até faz fumo. Mas hoje eu sentei a humildade à minha frente e obriguei-a a ouvir-me. Expliquei-lhe em tom condescendente qu...

Não deixem apagar-se o cheiro do vosso coração.

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Quando nascemos, somos extremamente vulneráveis. Somos das poucas espécies que dependem fisicamente da mãe, à nascença. Não estamos completamente desenvolvidos e por isso precisamos de protecção. Somos sensíveis . Ao crescer, a tendência saudável é para que nos afastemos lentamente dos progenitores. Vamos descobrindo, explorando. E à custa de algumas quedas, vamos endurecendo. Por dentro e por fora. São estas quedas que nos permitem o nosso desenvolvimento e a nossa aprendizagem. Aqui criamos os nossos limites. Tornamo-nos mais fortes, mais independentes. Mas com este crescimento vêm outras coisas. A educação . A cultura . E lamento ser pessimista neste aspecto, mas porquanto educação e cultura nos alimentam, enquanto raízes e origens, também tendem a limitar-nos. A sociedade, enquanto nos abraça, também nos impõe regras. Se quisermos fazer parte dela, se é que alguma vez tivemos escolha. Ensinam-nos que, a partir de certo momento da nossa vida, ser sensível é ser fraco....

Esse lugar que é dançar.

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Pediram-me que escrevesse. Para uma aula de dança contemporânea. Não me disseram para escrever sobre dança. Mas em jeito de batota, eu sei que vou dançar aquilo que escrever. Por isso, faço uma capicua deste exercício! Quando danço liberto a alma dorida. Aquela que está cá dentro escondida e que até aqui não sabia falar. Dei-lhe uma voz, a voz do corpo. Mas quando danço, também dou espaço àquilo que existe em mim de melhor. Solto a luz que existe em mim, deixo-a esticar os braços, espreguiçar-se e brilhar. Na dança não estamos fechados em gaiolas de definições, dicionários, estruturas de frases. Criamos significados em cada novo movimento, como um quadro que nunca termina de ser pintado. Expressamos o que vai cá dentro e que por vezes não tem nome. Rasgamos o que existe e começamos de novo... A dança dá-nos um sítio para onde ir. Liberta-nos dos vernizes que nos tornam rígidos, inflexíveis, todos iguais. Dá-nos tempo para encontrarmos o murmúrio do nosso ...

A desilusão...

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... chega de mansinho, entra-nos pela porta do coração sem a fazer ranger. E parte-nos qualquer coisa cá dentro. Talvez a própria porta, por onde entrou e por onde volta a sair, quando terminou de fazer todos os estragos. Ao sair, faz bater a porta com força. Anuncia a sua partida, mas é como um eco. Continua a fazer-se sentir, tempo depois, como um gongo. E assim ficamos, arrumando a casa com música ambiente. Ficamos a braços com uma porta que fecha mal e que é preciso reparar; que nos provoca uma ventania desgraçada no coração, desarrumando a papelada toda! A desilusão é sempre a preto e branco. Não sei porquê. E é sempre maior, quanto maiores forem as expectativas que se alimentavam. Por isso, é uma faca de dois gumes... Assim um bocadinho como um quadro de forma indeterminada. Olhamos para ele, rodamo-lo em todos os sentidos possíveis, tentando compreendê-lo, mas não conseguimos decidir qual é o lado de cima ou de baixo. Por onde devemos pen...

Será que...

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... uma pequena gota de água, enfileirada no oceano ao lado de milhões de irmãs suas, consegue contrariar a corrente? Se pegarmos num copo de água [não interessa se o vêem meio cheio ou meio vazio, nesta experiência dá igual!] e o agitarmos na nossa mão, as gotas de água formam um uníssono e movem-se na direcção por nós impulsionada. Não me vou alongar sobre leis de física (sobre as quais nunca entendi mais do que o essencial), nem filosofar sobre a possibilidade de uma gota de água ou até mesmo uma lágrima poderem ter vontade própria ou personalidade, ao estilo de uma fábula. Pergunto-me só se a vontade de uma dessas gotas, lá enfiada ombro-a-ombro com as outras, será suficiente. Para resistir à tendência,  ao movimento de sempre. Mais fácil é, certamente, acompanhar a força maior. Mas será possível ir no sentido oposto? Hoje, durante esta minha experiência, podia jurar que vi duas ou três gotas a saltarem mais alto, descrevendo um arco e ...

Regresso ao que é essencial.

Recomeçar exige abdicar. De peças que achávamos indispensáveis ao puzzle, m as que afinal nunca lhe pertenceram. Ou que simplesmente deixaram de servir... Limpar o quadro. Sem negligenciar traços de giz, apenas por nos parecerem especialmente bem desenhados. Reaprender a necessidade de silêncio. Para afinar as agulhas, de volta ao caminho para dentro . Ouvi algures que quando nos perdemos do caminho original, isso também é parte do caminho. O que faz sentido, se pensarmos que essa história de existir um único caminho é uma ilusão! Uma fantasia, que só nos causa problemas... porque nos pressiona para mostrar resultados e nos faz perder o sentido da viagem . Eu quero namorar a minha viagem. Quero conhecê-la dia a dia, sem a tomar por garantida. Quero agarrar cada passo meu. Porque venho descobrindo que os passos mais importantes não são necessariamente seguros e definitivos. Dói, quando voltamos atrás num passo que foi difícil de dar. Ou quan...