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Era o sonho, ou eu.

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Vi-te ao longe e quis ir ao teu encontro. Não sabia ainda o que é que isso significava. Não sabia nada. Mas achava que sim. Assim fiz, de impulso. Como em quase tudo o que faço. E deixei-me estar ao teu lado, porque fazia sentido. Porque o mundo se abria à nossa passagem e eu via um outro mundo, desfilando nos teus olhos. Um mundo de coisas novas, com brilho, sem tecto e sem fim. Um mundo onde eu podia caminhar e ser dona de qualquer coisa. Talvez de mim. Mas não foi isso que aconteceu. Ou pelo menos não foi a única coisa que aconteceu. De facto, com alguma frequência aconteceu o inverso. Estar contigo acabava por me dar uma sensação de impotência. Por vezes esmagadora. De não ser suficiente. De não conseguir chegar aonde tu precisavas que eu chegasse. E lá estou eu, às voltas para tentar pôr a culpa só em ti. Claro que também tive culpa - pelo menos metade é minha. A verdade é que eu não estava lá. Não sabia o que estava a fazer, e por isso só posso agora pedir desculpa. Como...

Mesmo que isto seja um texto de merda.

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É preciso insistir, dizia-me um passarinho hoje. É preciso, mesmo em dias cinzentos, insistir. Abraçar a frustração de não conseguir escrever. Sentarmo-nos com ela a fumar um cigarro, encará-la, deixar que nos dissolva a paciência, e vai daí escrever alguma coisa; qualquer coisa. Pode ser que daí surja zanga, mais zanga ainda, porque ao reler percebemos: "isto está mesmo uma merda!". E pega-se nessa zanga avolumada, nessa trouxa sem jeito, nesse molho de brócolos mal enjeitado, e escreve-se outra vez. Zangados e tudo; a fumegar, se for preciso. "Tal como andar de bicicleta", dizia-me o passarinho, "se não praticas durante muito tempo, a atrapalhação não quer dizer que tenhas deixado de saber andar. Mas não convém atirares-te por uma rampa abaixo, depois de teres passado muito tempo sem andar. Começa devagarinho." Aceita o ziguezaguear da bicicleta como teu. Como natural, e como temporário. Irrita-te com isso, se isso te fizer mexer para mudar. Mas nã...

Sentir.

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Hoje levantei-me e estava calor. Há vários dias que o calor não amaina; as paredes não arrefecem, o corpo não tem sossego. Tomam-se dois e três banhos num dia, para tentar aplacar esta inquietação. Tudo está demasiado quente: a sopa está quente; o computador está quente; a casa está quente; a rua, a roupa, o corpo - que irritação, sentir que tudo está quente. E lá vamos nós, na nossa agitação, reclamando pelo caminho, no meio do trânsito; reclamando das pessoas com quem temos de falar, ou daquelas que não falam connosco. Passamos o dedo pelo telemóvel e verificamos "gostos" em publicações, como se verificássemos abraços ou carinhos. É difícil sentirmo-nos gratos, com a pressa dos dias. Não nos confortamos com o rumo que o dia está a levar, ou mesmo os dias em geral. Sobra-nos pouco, pelas nossas contas. Queríamos mais. E depois há pessoas que acordaram num dia como estes, nossos, sem saberem como é que ele iria acabar. Sem saberem que seria o último carinho, a última ...

Uma luz presa cá dentro.

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Hoje lia, de Victor Hugo: 'A writer is a world trapped in a person.' ("Um escritor é um mundo preso dentro de uma pessoa.") E é isto. É sentir todo um mundo revolver-se dentro de nós. Como o mais inquieto bebé de sempre, no ventre de sua mãe, em fim de termo, impaciente, demasiado grande, cheio de calor e frustração, mas acima de tudo, confuso. O piano diante do homem que não quer ouvir. O coração diante daquele que não lhe sabe tocar. E por mais vídeos que se vejam, por mais que se leia e se alimentem os sonhos com filmes e canções, chega a hora do espectáculo e há dias em que simplesmente não funciona. "Teremos de ver", disse o técnico enquanto apagava os holofotes, um a um. Tens de querer ainda mais. Tens de esticar mais a perna, de alongar mais, de suster a respiração; e tinhas de ser mais nova para conseguir fazê-lo. Não sei bem o que posso fazer mais por ti, mas farei o que puder, até porque és uma miúda porreira e tudo. E lá vais tu, rebo...

Pequena coisa. Coisa pequena.

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Em cada um dos teus dias tem de haver uma coisa, pelo menos uma coisinha pequenina, que seja boa. Acredita. Apenas ainda não reparaste. E pode não apagar todas as menos boas e as terríveis que por ti passam, nesse mesmo dia. Mas não te deixes enganar. O tamanho não está apenas nas coisas, mas também na mão que as agarra. Será que a encaras como uma perda de tempo (sim, essa coisa boa de que falei), como uma poeira própria de microscópio, ou será que és capaz de algo muito mais difícil e desafiante - deixar-te levar pela curiosidade de descobrir o quão grande essa coisa pode ser, dentro de ti? Não ouso dizer que descobri a cura para todos os males, nem a estratégia certa para todos os dias. Mas na maior parte dos dias corremos; estabelecemos metas e deixamo-nos apanhar sobretudo pelas tarefas e deveres (têm de vir primeiro). Não sobra tempo para as casualidades, para os pormenores e para as sortes dentro dos percalços. Às vezes dura o tempo de uma respiração. Estás atento? Hoje ...

Dias cá. dias lá.

Há dias em que consigo viver esquecendo-me que existes. Como se não povoasses ainda memórias, sonhos, passos. Há fases em que o faço gloriosamente; viver sem ti. Dias em que sou capaz de contar várias razões para estar só. Razões para continuar a ter esperança no dia de amanhã, num caminho aberto à minha frente. Dias em que recordo como vim parar aqui. Em que sou capaz de olhar em volta e contar várias bençãos, sentir-me grata, respirar fundo e continuar. Há dias em que sei que tem de ser. Há dias em que não faz mal. Em que não dói. Mas depois há dias como o de hoje. Há dias em que tenho de morder valentemente os lábios para me impedir de te chamar.

Em caso de dúvida, levante o braço.

Em tempos de confusão e dúvida, siga em frente. Sempre que as apitadelas forem mais do que muitas, e lhe der a sensação de que pode estar a fazer algo errado, pare. Encoste a uma berma assim que possível, e respire fundo. Se possível, fique mesmo por aí, e volte a pegar no carro apenas no dia seguinte. E se precisar de ajuda, vá lá, não seja assim... levante o braço. Não se esqueça de fazer algo que lhe dê muito prazer, todos os dias. Seja só um café, sejam três páginas do novo romance do seu autor favorito, ou algo mais pecaminoso, ou até mais vulgar (como o romance do seu quinto autor favorito, que encontrou em promoção no supermercado). Não importa, na verdade, a natureza da coisa em questão. Importa só o prazer que esta lhe dá. Não desista de se oferecer, diariamente, um bocadinho de consolo. Se for mais do que um pedacinho, melhor. É esse pedacinho de si que vai alimentar todos os outros. É esse lugar de si, agora acariciado, que vai criar espaço para os outros, os que precisam...