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Reflexões do caos

Há um enlouquecimento puro nos dias. Repararam? Corremos da cama para o trabalho; só paramos para nos olharmos ao espelho de forma a garantir que não estamos ridículos (com alguma madeixa de cabelo no ar, com um olho borrado de maquilhagem), em vez de ser para nos apreciarmos e cuidarmos de nós. Engolimos um café a ferver pela goela abaixo para garantir que as poucas horas de sono que nos permitimos nos darão a tolerância suficiente para a quantidade de absurdos que teremos de enfrentar ao longo do dia. Vociferamos nos nossos carros, com os outros condutores; irritamo-nos com quem está a fazer o mesmo que nós faremos uns metros à frente. Bufamos, dizemos asneiras, ou simplesmente ficamos tensos. Caminhamos todos, qual rebanho, na mesma direcção - cada um em seu carro, a gastar o seu próprio combustível. Se procuramos alternativas de transporte, somos frequentemente lixados com f* grande - ou porque não compensa em termos de preço, ou em termos de tempo, ou porque simplesmente nã...

Birra.

O som lá para baixo deve estar uma loucura, dizia a boca à cabeça. Referia-se ao salão onde estava o coração. Aqui por cima tudo bem, continuava a boca. E no entanto falava sussurrando, com medo de provocar dores à cabeça. Porque tudo se trata de diplomacias, por vezes até de paninhos quentes; porque em certos dias não se resolvem os medos, só se seguram, com as pontas dos dedos. Como quem diz, mal e porcamente. E o coração é o primeiro a sentir tudo - o primeiro a reagir, a pôr os pés à parede. Literalmente pontapeando as paredes da caixa, como um bebé muito crescido para a barriga da mãe. E quando isso acontece, há que escolher boa música, pôr o banho a correr, ferver água para o chá, escolher a roupa mais confortável e com mais paciência nos bolsos. E não ter pressa, não ter barulho, não ter nada. Decidir não ter absolutamente nada, a não ser tolerância para com a birra de dentro. Que há de passar. Ah pois vai.

Não soa ridículo, se for uma árvore em vez de uma pessoa?

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Mais um ciclo. Mais algumas portas fechando-se; o olhar poisa sobre elas, meditando, procurando não fazer juízos de valor. Determo-nos lá atrás é sempre um risco; não só porque aquilo que doeu nos paralisa, mas igualmente porque aquilo que soube bem, teria certamente alguma razão de ser, se ficou para trás. O Outono vai-se instalando - este ano, com particular delicadeza. Parece querer vincar o facto de ser diferente do Inverno - assim como um irmão mais novo que se esforça para se destacar do outro, ainda que saiba que, no fundo, são terrivelmente parecidos (e que isso nada tem que ter de terrível... mas adiante). Cresce-se-nos, vinda sabe-se lá de onde, uma energia especial para limpezas e mudanças, nesta altura. É isso e Janeiro, com as resoluções. Há trocas de roupa, abraçando tecidos e formas mais aconchegantes, mangas mais compridas. Aproveitam-se os dias de sol para lavar e arejar, para armazenar em frasquinhos o que sobra de calor. Despedimo-nos das roupas leves num ...

Alice e as escolhas

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De repente ela é uma Alice. Há pedaços de bolo, todos de aspecto apetitoso; uns fá-la-ão sentir-se e/ou tornar-se) pequenina; outros talvez sejam só saborosos. Da mesma forma, frasquinhos de conteúdos variados e brilhantes alinham as suas barrigas transparentes à frente dos seus olhos. Entre eles, haverá com certeza um que a transformará numa menina gigante (ou numa mulher?); outros quiçá lhe providenciem acessórios especiais - uns fartos bigodes, orelhas animalescas. “Alice: Would you tell me, please, which way I ought to go from here? The Cheshire Cat: That depends a good deal on where you want to get to. Alice: I don't much care where. The Cheshire Cat: Then it doesn't much matter which way you go. (...)" 'Am I to be trusted?', the new Alice thought. 'Trusted that I will somehow take the right direction?' By which she means she will eventually have to find out exactly what 'right' means, in her case. A nova Alice vê-se a braços com ...

Caminho para a ilha

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[Tenho medo do que me possa acontecer.] Mansa e silenciosa, uma onda vem poisar aos meus pés. Não se anunciou de forma turbulenta, como as outras. Mas de alguma forma (talvez devido à sua discrição), foi a que chegou mais longe. Foi a que subiu mais alto, foi a que docemente se entranhou pelas minhas pernas acima, e deixou as suas dedadas geladas algures no meu pensar. Foi sem dúvida a mais perigosa; não a vi chegar. Conturbados tempos se atravessam, neste 2016. Um conturbado que deverá culminar em bom, assim se espera o balanço. Mas o tempo é mesmo de desequilíbrio - entre as ondas que não se ouvem e as que levam tudo à frente -, e há que ser paciente. Mas todos sabemos o desatino que é, querer caminhar direitinho na areia - simplesmente impossível. Abracei o meu jeito desalinhado de caminhar. Fiz pazes com as partes de mim que caminham assim. Habituei-me de tal forma que agora caminho descalça no asfalto, esqueço-me das maneiras do antigamente - das maneiras dos outros. As m...

Palavras, leva-as o vento.

Encontrar a coragem para dizer as palavras que têm de ser ditas. Ir buscá-las ao canto mais triste que existe em mim - um canto pequeno, onde nadam em espiral as poucas coisas de que desisti na vida. Enfim, tropeçar nas palavras, com a calma de um condenado que sabe que vai morrer, mas que ainda assim acredita em milagres. [conversa interior] Não devia ser assim, pois não? Mas penso em ti. Penso em tudo o que está para vir. Não posso fazer-te feliz. Não tenho o  que procuras, o que precisas. Confesso que devia antes de mais pensar em mim, e as pessoas nunca acreditam quando digo, mas a verdade é que essa é sempre a última bola a sair do saco. Que seja, precisas de ter paz. E eu já tentei tanta coisa, não consigo transmitir esse bem. Mas eu quero-te bem. Então... abdico do amor? Mordo os lábios para não beijar? Sim, caramba, é isso que as pessoas boas fazem, diz-me o meu interior. A longo prazo será melhor... Digo tudo, deito-o para o ar. Está dito. Rezo para dentro, à minha ma...

Metade pedra, metade coração.

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Quando se pergunta: o que procuras no amor?, podem surgir mil respostas. Eu consigo imaginar que uma dessas respostas sumariza todas as outras. Queremos ser entendidos. Pomos isso por palavras diferentes, damos coberturas e "glacés" diferentes, mas na verdade tudo vai cair nessa finalidade tão simples. Não importa quão diferente possa parecer à primeira vista. "Eu quero alguém com quem me consiga identificar." "Gostava de encontrar alguém que se risse das mesmas coisas que eu." "O que eu procuro mesmo é alguém com gostos parecidos, com quem dê para conversar." "Para mim é essencial que a gente se entenda na cama." "Queria alguém com quem pudesse fazer coisas, ir a sítios." "Tem de ser alguém à minha altura!" "Só há uma coisa que não dispenso: é que seja tranquilo, que me dê segurança e paz." Seja qual for o linguajar, o sentimento ou a forma de o pôr por palavras, na verdade o que procuramos é e...