Mensagens

Até onde vai a extravagância de uma alma?

Imagem
Chega esta altura do ano, e eu sinto formigueiros. A pele dorida, escondida o ano todo, arde-me encostada à roupa. Pede-me luz. Pede-me espaço. Os pés deliciam-se com a liberdade que o calor lhes traz. Resmungam imediatamente, se eu tentar encarcerá-los nuns ténis. Só estão felizes de cara encostada ao chão fresco de casa. Ou melhor ainda, no chão do estúdio, "mascarrados" e a dançar até estarem, como hoje, repletos de nódoas negras. Mas livres. A pele está branca e pede-me sol. As feridas das mãos pedem-me o sal do mar. As convenções sociais exigem que só mostre o corpo quando estiver livre de pêlos. Mas todo o meu corpo deseja incondicionalmente um pedaço de sol. Como o espanta-espíritos no alpendre, que aguarda mudo que o vento chegue, para lhe devolver a vida por instantes. Não sabe dançar sozinho... mas tem as sapatilhas prontas e a voz afinada... dentro dele guarda a ternura de uma melodia, que só espera ser tocada. Até onde vai a extravagância de uma alma? Pés ...

Conversas de dentro.

Imagem
Onde estás? Presa numa teia. Assim estou desde o início dos tempos. Não se explica. Não se percebe. Não há razões para não sorrires, menina! E não há fios a prenderem-te os tornozelos... estás de pés no chão, afinal. Livre para seres quem quiseres. O que esperas para abrir as asas? Não sei explicar... nem estou certa que tenha de o fazer! Mas vá... a verdade é que me sinto sem asas. Ou sinto-as envoltas num novelo confuso. Não sei distinguir onde começam as minhas asas e terminam os fios deste labirinto... somos um só e eu não sou nada, senão uma miscelânea de coisas que queria ser e que não encontro espaço para concretizar! Olha, assim como se tivesse um molho de peças de um puzzle na mão, e não tivesse espaço para as espalhar, separá-las e poder transformá-las naquilo que elas são; juntar-lhes os contornos, as sombras e as cores e compreender o seu significado! Estou a dizer-te que tens asas... não acreditas em mim? São bonitas, brancas. E os teus pés assentam no chão, direitos...

Danço e sou um novo lugar.

Imagem
Em alguns dias, se tivermos sorte, a dança ajuda-nos a evaporar as coisas da alma. As preocupações vão escorregando através dos poros, fazendo cócegas. As alegrias expressam-se com uma verdade recuperada da infância... Porque tal como uma criança não possui naturalmente o dom do artifício e do engano, também o corpo conserva essa pureza. Deixá-lo falar é, por isso, guardar filtros e deixar histórias de lado. O privilégio de uma viagem no tempo... que podemos aprender a prolongar. Há uma verdade primitiva e absoluta, nas emoções que transpiram de um corpo que dança. E o quanto damos de nós próprios enquanto dançamos revela, na verdade, a generosidade do nosso espírito. Quando somos capazes de nos entregar plenamente, conhecemos um novo equilíbrio dentro de nós. Uma nova liberdade. E no entanto, é também um voltar a casa. Dançamos e a nossa alma põe-se em conversa com o mundo. Por isso eu danço, e assim abraço a criança que vive em mim. Nos dias bons, que são cada vez mais, é impo...

Janela

Saio do banho. Oiço um crepitar longínquo que não consigo perceber. Será desta que a madrugada começa a despertar em mim? Sinto assim um formigueiro cá dentro. Pergunto-me se é finalmente a luz a querer irromper para fora de mim. Procuro vestígios à minha volta. Fios de luz entornados na sombra, evidência de um começo. De uma janela que quer abrir-se de mansinho. Espreguiço-me. Ponho " Bohemian Rhapsody " a tocar, o volume a abaular os tectos. O corpo desliga-se da mente, move-se sem fios condutores. E no entanto, algo parece conduzi-lo. Algo cá dentro lhe dá electricidade. Não consigo parar... Tenho esta visão colada a mim, pegada ao corpo como o suor num dia de calor. Movo-me com crescente intensidade, para a tentar sacudir de mim. Mas talvez contrariando tudo, ela torna-se parte de mim. Talvez ela encontrasse essa brecha em mim, e aproveitando-se dela, se esgueirasse alma adentro. Às tantas danço-a. Danço esta visão até à exaustão, até que os cabelos acabados de sair d...

A própria.

Imagem
"Tens de caminhar sozinha, agora". O medo instala-se em cena. Talvez já se sentisse em casa antes, mas não se mantinha de guarda a todas as horas do dia. Costumava aparecer somente à noite, para a acompanhar na sua solidão . Povoava-lhe o adormecimento e o sono, tornando ambos intranquilos. Era assim que ela sabia que ele estava lá. Um dia, ela decidiu começar a procurar a solidão às escondidas do medo, rezando para que a luz do dia abafasse o som dos seus passos. Pôde passar algum tempo a conhecer melhor a solidão, fazendo dela uma segunda pele. Mas um dia, vá-se lá saber porquê, o medo descobriu. Sentindo-se enganado, decidiu entrar em cena para ficar. Agora esse medo é um cabide que a segura todo o dia. E a solidão deixou de ser momento e tornou-se condição, pano de fundo, cenário. Mesmo com vários actores em palco, é a solidão que sobressai aos olhos dela. Espectadora. "Se queres evoluir, terás de caminhar por ti. Sem ajudas." Entretanto, em jeito de te...

Pausa para desabafar.

Enrolo o olhar na luz de meio da tarde, quebradiça e enevoada. Embora estejamos já em finais de Maio, o calor abandonou-nos por uns dias. Hoje é o segundo dia em que o sol voltou a brilhar timidamente, depois de uma corrente fria que nos levou quase de volta ao Inverno das malhas e dos gorros. Refugiei-me no jardim para pensar. Para desligar e para desenredar alguns nós. Ignoro a pele de galinha e cedo aos mimos exigidos apenas pelo cão. Tento pôr ordem na cabeça, que se desalinhou por estes dias. Pai doente. Mãe doente quando o pai melhora. Mãe hospitalizada. Mãe sai do hospital, ainda frágil. Mãe melhora, ao mesmo tempo que o pai fica doente novamente. Se a inteligência nunca foi um dom óbvio, nas últimas semanas tornou-se um fio de luz ainda mais fraca, para não dizer apagada. É impossível pôr em curso qualquer projecto mental, nas correrias para que os "serviços mínimos" sejam cumpridos. Sobretudo se tivermos em conta que as exigências do patronato são de metas quase i...

O desencontro de mim própria.

Conheço cada vez melhor o meu problema de pele. Já lhe chamaram eczema, psoríase, alergias. Eu chamo-lhe auto-sabotagem. Ou alergia a mim própria. Apesar de se tratar de uma condição física, esclarece imenso sobre a forma de funcionamento da minha mente. Uma mente que se sabota a si mesma. Que destrói à partida todas as tentativas de cura. A minha pele funciona de forma semelhante: destrói-se a si mesma, não se reconhecendo enquanto una e parte do mesmo corpo, mas antes como um agente estranho que é necessário eliminar. Desta forma, passa o tempo todo em ferida, a esforçar-se por se renovar, não chegando a uma identidade própria - por esta razão, quase não tenho impressões digitais que se apresentem. Mais uma vez, uma óptima metáfora para a minha psique que, insegura e frágil, não se permite uma afirmação, uma coordenação de esforços no mesmo sentido. Baralhada, constrói pressupostos temporários e apressados, que duram pouco, até caírem sozinhos ou serem facilmente d...